Cinema e educação #4 — Quando a turma faz o filme: o que aprendemos nas oficinas
Quarto texto da série Cinema e Educação, da Pupilo. Se você ainda não leu, comece por “Quando a criança segura a câmera”, onde contamos a oficina Terror na Creche e apresentamos a Rede Kino e outros projetos que fazem cinema com estudantes. Aqui, vamos para os bastidores: o que aprendemos fazendo oficinas.
Nos últimos anos, a Pupilo levou oficinas de cinema a uma creche, a centros da juventude, a comunidades quilombolas e a grupos de imigrantes. Cada uma foi diferente da outra. Mas algumas lições se repetem, e elas conversam muito com o que pesquisadores de cinema e educação escrevem há anos.
Quatro oficinas, quatro histórias
Comunidades quilombolas do Contestado (2023). Em maio de 2023, como parte da 3ª Mostra de Cinema Chica Pelega, edição quilombola, o cineasta Yasser S. González conduziu a oficina “O Minuto que Foi” nas comunidades Invernada dos Negros e Campo dos Poli, em Santa Catarina. Dali saíram três curtas coletivos: A luta de um quilombola polinário, Luta e resistência – Invernada dos Negros e Nos batuques dos tambores: o sonho de muitos. Quem conta a história é quem vive nela.
Projeto Realidades, Pinhais (PR, 2023). Em oito encontros com adolescentes atendidos pela assistência social e pelo Centro da Juventude de Pinhais, a oficina misturou exercícios de filmagem e sessões de cineclube sobre cyberbullying. O resultado foi o curta A Opinião é Sua, a Realidade é Minha.
Oficine, Campo Mourão (PR, 2024). Vinte e cinco adolescentes atendidos pelo CRAS, em parceria com a Secretaria de Assistência Social, passaram uma semana intensa de produção audiovisual, com 25 horas de formação, debatendo temas como consciência de classe. Fizeram os curtas Elisa e A Cadeia, que estrearam em 14 de agosto de 2024 e foram exibidos no Colóquio da Juventude de Campo Mourão. Um deles chegou à Mostra de Cinema e Educação da CineOP, em Ouro Preto.
O Minuto que Foi, Joaçaba (SC, 2025). Em fevereiro de 2025, a oficina voltou, agora com imigrantes haitianos e venezuelanos, numa parceria com a Secretaria de Assistência Social de Joaçaba. A fluência em português não era exigência. O documentário coletivo Entre Mundos, Entre Cidades fala de racismo, saudade e integração.
Lição 1: o processo vale mais que o produto
É tentador medir uma oficina pela qualidade do filme final. Alain Bergala, no livro A hipótese-cinema, alerta contra isso. Na escola, escreve ele, o objetivo primeiro não é o “objeto-filme”, mas “a experiência insubstituível de um ato, mesmo modesto, de criação” (BERGALA, 2008, p. 173).
Ele chega a desconfiar dos filmes escolares muito aplaudidos: às vezes são justamente aqueles em que os autores menos aprenderam, porque se preocuparam demais em agradar (BERGALA, 2008, p. 173). Ninguém espera que uma criança de dez anos desenhe como um pintor profissional. Por que esperaríamos isso do filme dela? (BERGALA, 2008, p. 174-175).
O que avaliar, então? Segundo Bergala, o engajamento no processo, a coerência do processo e o fato de alguém ter realmente feito escolhas e as testado na filmagem e na montagem (BERGALA, 2008, p. 175).
Lição 2: o adulto também está ali, e tudo bem
Em toda oficina surge a dúvida: até onde o adulto pode interferir? Bergala é honesto sobre isso. Ele desconfia de quem anuncia, sem ninguém perguntar, que “foram os alunos que fizeram tudo sozinhos” (BERGALA, 2008, p. 178). Num set de cinema, o diretor conversa com o produtor, com os técnicos, com os atores; na escola não é diferente. O importante é distinguir com clareza o que veio das crianças, o que foi negociado com elas e o que foi do adulto (BERGALA, 2008, p. 178).
Uma regra que ajuda: combinar desde o começo que a ideia, o enquadramento e a decisão final são da turma, e que ministrantes e professores ajudam no que é técnico e na organização. E dizer isso abertamente na hora de apresentar o filme.
Lição 3: o filme só termina quando encontra o público
Bergala lembra que a escola, se quer ser lugar de troca, deve assumir o compromisso de “mostrar o que se fez” (BERGALA, 2008, p. 173). Mas com um cuidado: apresentar os filmes como registros de uma experiência, e não como espetáculo de fim de ano. Uma boa ideia, sugere ele, é mostrar na mesma sessão o processo (exercícios, ensaios, versões) e o resultado (BERGALA, 2008, p. 174).
Nas oficinas contadas aqui e em “Quando a criança segura a câmera”, os filmes estrearam diante de público: os curtas da creche na Casa da Cultura de Joaçaba, os de Campo Mourão no Colóquio da Juventude, o de Pinhais numa sessão de estreia no fim da oficina, os quilombolas na programação da 3ª Mostra Chica Pelega. É nesse momento que a turma vê a cara do público vendo o filme dela.
Lição 4: o tema nasce da turma
Na creche de Joaçaba, como contamos no outro texto, as crianças quiseram terror, e fizeram sete filmes. Nas comunidades quilombolas e com os imigrantes, os filmes falam do que essas pessoas vivem e querem contar. O projeto Inventar com a Diferença, da UFF, fala do direito de cada um a narrar o próprio território e a própria vida (MIGLIORIN et al., 2014, p. 13). Um bom ponto de partida é perguntar: o que vocês querem que os outros vejam?
Uma ideia para levar à escola: o filme-carta
No Inventar com a Diferença, o projeto final das oficinas é o filme-carta: estudantes fazem, com imagens e sons, uma carta sobre eles e seu território, uma forma de se corresponder com outras pessoas pelo cinema (MIGLIORIN et al., 2014, p. 22). Fica a sugestão para escolas de cidades diferentes, ou de bairros diferentes da mesma cidade.
Fresquet e Migliorin contam que a Rede Kino, a Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual, mapeou produções feitas em escolas de todos os estados do país, por estudantes de todas as idades, inclusive em escolas especiais, na EJA e em centros socioeducativos (FRESQUET; MIGLIORIN, 2015, p. 16). Ou seja: tem muita gente fazendo. Sua turma pode ser a próxima.
Os filmes citados aqui estão no tema Feito por crianças e jovens, no Pupilo Play. Mostrar para a turma um filme feito por outros estudantes é, muitas vezes, o empurrão que faltava.
Nesta série
- #1 Por que cinema na escola
- #2 A Lei 13.006, mais de dez anos depois
- #3 O cinema como arte na escola
- #4 Quando a turma faz o filme (este texto)
- #5 Como levar um filme para a sala com o Pupilo Play
Referências
- BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Tradução de Mônica Costa Netto e Silvia Pimenta. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE-FE/UFRJ, 2008.
- FRESQUET, Adriana; MIGLIORIN, Cezar. Da obrigatoriedade do cinema na escola, notas para uma reflexão sobre a Lei 13.006/14. In: FRESQUET, Adriana (org.). Cinema e educação: a Lei 13.006 – reflexões, perspectivas e propostas. Ouro Preto: Universo Produção, 2015.
- MIGLIORIN, Cezar; PIPANO, Isaac; GARCIA, Luiz; GUERREIRO, Alexandre; NANCHERY, Clarissa; BENEVIDES, Frederico. Inventar com a diferença: cinema e direitos humanos. Niterói: Editora da UFF, 2014.
- Making of oficina de cinema “O minuto que foi” – Comunidade Quilombola Invernada dos Negros. Canal Pupilo no YouTube, 2023.
- Making of – Projeto Realidades. Canal Pupilo no YouTube, 2023.
- Oficine Campo Mourão. Canal Pupilo no YouTube, 2025.
- Making of – O Minuto Que Foi. Canal Pupilo no YouTube, 2025.